Inflação em alta mexe com o bolso até das classes A e B

Pesquisa da Fiesp revela que escalada do IPCA alterou os hábitos de consumo também das famílias de posição social mais alta. Indicador deve encostar nos 9% em junho, apontam analistas.

Troca de produtos por marcas mais baratas, redução das idas a restaurantes, menor frequência a salões de beleza e até desistência da compra de eletrodomésticos. Esses são alguns dos novos hábitos de consumo que as famílias brasileiras, até mesmo as das classes A e B, passaram a adotar a partir da escalada da inflação, que deve chegar bem próxima dos 9% agora em junho, conforme apontam especialistas.

No acumulado dos 12 meses até maio, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou alta de 8,47%. Mas o IPCA a ser divulgado amanhã pelo IBGE deve mostrar nova elevação mensal, de 0,80% a 0,85%, o que fará o índice dos 12 meses atingir o patamar de 8,9%. Ontem, em nova projeção semanal de analistas do mercado, o Boletim Focus do Banco Central (BC) apontou que a inflação no fim do ano deve atingir os 9,04%.

“Passagens aéreas, jogos lotéricos e uma parte dos alimentos in natura devem puxar o indicador de junho para uma alta entre 0,80% e 0,85%. Sem falar que a energia, embora em proporção menor comparada a dos outros meses, deve registrar uma variação de 2%”, observa o economista da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre) André Braz.

Vamos encostar nos 9%, chegando aos 8,94% nos 12 meses, influenciado pela pressão que o dólar e o aumento da energia elétrica devem fazer sobre os alimentos”, salienta o economista da Austin Rating, Wellington Ramos.

Com o aumento do peso da inflação sobre o bolso do consumidor, a mudança de comportamento parece ser a saída comum a todos os brasileiros, sem distinção de classe social. Segundo pesquisa realizada pela Ipsos, a pedido da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), 81% dos 1.200 entrevistados perceberam significativos aumentos de preços nos últimos seis meses e alteraram suas prioridades na hora da compra.

Essa mesma sensação foi captada, também, por 81% dos entrevistados que compõem as classes AB. A maior pressão da inflação sobre o orçamento para esse perfil de consumidor veio do grupo alimentos e bebidas, apontado por 87% dos brasileiros consultados pela pesquisa. Logo atrás estão os gastos com energia elétrica e transporte, que inclui além do transporte público, os gastos com combustível e veículo próprio.

A percepção dos entrevistados está em linha com os dados do IBGE. Em maio, a inflação dos alimentos e bebidas atingiu alta de 8,80% nos 12 meses, segundo o IPCA. A energia elétrica chegou à maior variação acumulada, de 58,47%. Já a gasolina avançou em 10,92%.

“O nível de inflação que convivemos hoje representa uma piora na condição de vida no cidadão. O brasileiro é consciente disso e, por isso, muda seus hábitos para conviver com esse aumento de custos”, afirma o diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Paulo Francini.

Na prática, boa parte das classes AB têm preterido a marca pelo preço (48%) na hora das compras. Na classe C, o percentual de pessoas que têm escolhido o produto mais barato é de 52%, e na DE de 49%. Mas é na redução dos gastos com serviços que se faz sentir a maior mudança nos hábitos das famílias de nível social mais alto.

Dos entrevistados desse grupo, 34% disseram que reduziram a alimentação fora de casa. Enquanto que o percentual nas classes C e DE foi de 24% e 23%, respectivamente. Quanto ao consumo de serviços pessoais, como manicure, 15% dos entrevistados das classes AB reduziram esse tipo de despesa. Percentual superior ao das demais classes, sendo 11% na C e 8% na D.

Outra mudança de hábitos está no consumo de energia elétrica. Até as famílias das classes AB (37%) desistiram de comprar eletrodomésticos por causa do aumento no preço da energia. Entre os entrevistados da classe C, o percentual foi inferior, de 34%, já o da DE ficou em 43%.

Segundo Francini, pela primeira vez a Fiesp demanda uma pesquisa dessa natureza. “Em outros anos, não era tão claro que vivenciávamos um período de inflação superior ao aumento de renda e que representa uma restrição ao orçamento das famílias”,avalia Francini.

Para classificar as classes em AB, C e DE, a pesquisa seguiu a definição estabelecida pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas (Abep). A metodologia agrupa os entrevistados conforme o grau de instrução do chefe de família, a existência de serviços públicos na moradia e no bairro, como sistema de água e esgoto, e a quantidade de bens, como eletrodomésticos, eletrônicos e automóveis, além do número de banheiros na residência.

Por: Brasil Econômico

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Mestre em Economia, especialização em gestão financeira e controladoria, além de MBA em Marketing. Experiência focada em gestão de inteligência competitiva, trade marketing e risco de crédito. Focado no desenvolvimento de estudos de cenários para a tomada de decisão em nível estratégico. Vivência internacional e fluência em inglês e espanhol. Autor do livro: Por Que Me Endivido? - Dicas para entender o endividamento e sair dele.

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